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FICAMOS ALEGRES COM SUA VISITA

ESPERAMOS, QUE COM A GRAÇA SANTIFICANTE DO ESPIRITO SANTO, E COM O DERRAMAR DE SEU AMOR, POSSAMOS ATRAVÉS DESTE HUMILDE CANAL SER VEÍCULO DA PALAVRA E DO AMOR DE DEUS, NÃO IMPORTA SE ES GREGO, ROMANO OU JUDEU A NOSSA PEDRA FUNDAMENTAL CHAMA-SE CRISTO JESUS E TODOS SOMOS TIJOLOS PARA EDIFICACÃO DESTA IGREJA QUE FAZ O SEU EXODO PARA O CÉU. PAZ E BEM

AGRADECIMENTO

AGRADECEMOS AOS NOSSOS IRMÃOS E LEITORES, POR MAIS ESTE OBJETIVO ATINGIDO, É A PALAVRA DE CRISTO SEMEADA EM MILHARES DE CORAÇÕES. PAZ E BEM

sexta-feira, 21 de maio de 2010

NO ENCONTRO DOS INACEITAVEIS

(início uma sére de pequenas crônicas - a começar por no encontro dos inaceitáveis e o olhar do telhado)

"o perdão representa a sincera postura a fim de reconhecermos o quanto necessitamos da Graça de Cristo."
O teólogo reformador Martinho Lutero, um dos mais precípuos representantes de um movimento responsável pelo resgate da liberdade espiritual, estabeleceu e estribou suas proposições na relação pessoa-para-pessoa. Presumidamente, enfocou a importância da coragem de ser ou da fé genuína num encontro aberto e franco, transparente e contundente entre Deus e o ser humano.
Aliás, sempre se torna de bom alvitre ressaltar, muito embora as situações adversas que vivenciou e das ambigüidades do seu tempo.
Mormente todas essas contingências negativas, priorizou o encontro pessoal com Deus, como elemento substancial e florescedor de um estado de sentido e confiança.
No tecer desses comentários, trago para esse discurso a figura do diabo e da morte. Para tanto, valho-me, em prol de uma maior exemplificação, da gravura efetuada por Albert Durer, ‘’o Cavaleiro, a Morte e o Diabo’’. Eis, de maneira sucinta, o desenrolar desse encontro. Enquanto o cavaleiro de ponto em branco cavalga em um lado, a morte; noutro lado, o diabo.
Mesmo diante desse cenário, poderíamos arriscar dizer, enevoado pelo nada, caminha e segue adiante. É bem verdade, a solidão não pode ser descartada, a despeito de tais expressões negativas. Sem hesitar, partilho das intenções Luteranas e, além de aquiescer de quão salutar constitui esse encontro pessoal com Deus, acaba por proporcionar uma certeza incólume e de relação séria e sincera com Deus.
Vale notar, ao elucubrar sobre os efeitos e as respostas encabeçadas pela Reforma, pude abrir as vias para uma proposta de proximidade, de intimidade e liberdade pessoal, direta e honesta com Deus.
Ultimamente, tenho observado a reedição, sobre as vestes do pragmatismo e utilitarismo, entranhados a um cristianismo impessoal, quantitativo e despersonalizado de vida. Lamentavelmente, observamos um contingente de pessoas desafeitas a uma relação de pessoa-para-pessoa, ou do encontro pessoal com Deus.
Destarte, trilhamos por um evangelho omisso em enfrentar questões pontiagudas da existência humana. Isto sem falar naqueles que, de bom grado, aceitaram a alienação e resignação do presente século.
Sem sombra de dúvida, representam a versão do cavaleiro sempre prestes a ser engolfado pelo diabo e pela morte, ou de nem sequer demonstrar consideração.
Assim sendo, enfatizo a idéia fundamental do evangelho de Cristo, aceitar os inaceitáveis. Segundo o preceito evocado, argutamente, por Lutero de que ‘’quem é injusto é justo’’. Dessas colocações há o dissipar do estado de culpa e condenação. Devemos nas respostas ao genuíno significado da doutrina paulino-luterana ‘’da justificação pela fé, do injusto se tornando justo, do inaceitável sendo aceito’’.
Em tempos de tantos espelhos de comparação e de um mundo bifurcado entre incluídos e excluídos, aprovados e reprovados, aceitos e rejeitados, culpados e absolvidos, mártires e déspotas, somos chamados para submergirmos no lenitivo da Graça.
Cabe salientar, o único critério para vivenciar esse renascimento, tem como atribuição peculiar uma liberdade de aceitação e de ser justificado. Ou seja, sem entraves morais, religiosos, dogmáticos, ideológicos, intelectuais, raciais, econômicos e por ai vai.
Ser bom!
Ser sábio!
Ser piedoso!
Ser justo!
Tudo isso e outros ser (s) saem de cena.
Em poucas palavras, sermos aceitos na comunhão espiritual do encontro pessoa-para-pessoa com Cristo.
O Olhar do Telhado
As instigantes e laceradoras obras do escritor e pensador Kafka deixaram um legado singular na humanidade. De maneira mais específica, trago ao palco dessa superficial reflexão, os Romances ‘’O Castelo e o Processo’’. Sem titubear, extraio, dessas obras, a situação da perda de significado e, vou além, de um solapar irrevogável da justiça e misericórdia.
A dialética, ou o exercício dialogal, das palavras articuladas por Kafka nos convidam a analisar a obscuridade do presente século. Vale notar, por mais que muitos relutam e, contumazmente, insistam em favor de estarmos na trajetória certa e correta. No entanto, a esperança no progresso de uma cultura pragmática, técnica, formalista e individualista, tão aclamada no presente Séc. XXI, em nada conseguiu reduzir os díspares de um mundo marcado por pontiagudos problemas de ordem ética e humanitária.
Às vezes, sinto estar no telhado do universo e observo nitidamente as convulsões das metrópoles, das suas marcas de violência social, psicológica e moral, da exclusão personificada nas periferias e outras mazelas estampadas pelos jornais de cada dia.
Quiçá, em meio a um contexto de incertezas, necessitamos da coragem de Hebreus 11 e ir a direção de um Cristo disposto a revolucionar idéias e não sistemas.

A LOGICA DE DEUS

De maneira básica, popular, e com a ajuda do Aurélio, podemos definir lógica como: "a coerência de raciocínio, de idéias".

Biblicamente podemos afirmar que a lógica de Deus é inversamente proporcional à do homem. Ela é matemática e filosoficamente louca, mas, espiritual e divinamente sábia.
Vejamos:
Os gigantes do mundo são como Golias: grandes, fortes, soberbos, orgulhosos; confiam na própria força, no poder das armas, naquilo que é aparente.
Os gigantes de Deus são como o pequeno Davi: totalmente dependentes, reconhecem a própria fraqueza e confiam exclusivamente no Senhor.
Os gigantes do mundo firmam-se sobre os próprios pés. Os gigantes de Deus firmam-se sobre os joelhos, pois é de joelhos que o gigante de Deus é grande.
Na lógica divina os fracos é que são fortes (2 Cor 12:9-10). Na lógica humana isso é irracional. O mundo não aprecia os fracos, estes devem ser eliminados, somente o mais forte prevalece.
A lógica divina diz àquele que quer ser grande entre os seus irmãos: torne-se o menor de todos e sirva aos demais. A lógica humana abomina esta idéia, aquele que quer ser grande deve se impor, mostrar sua força, sua habilidade.
A lógica humana ensina a autopromoção. Deus diz: quem quer ser exaltado deve se humilhar, pois o que a si mesmo se exalta será humilhado.
Na lógica humana os conquistadores do mundo são os bravos, os guerreiros, os que impõem pela força a própria vontade. Na lógica de Deus os mansos são os que herdarão a terra.
Na lógica humana vence o maior exército. Deus costuma diminuir o exército, como fez com Gideão, antes que este alcance a vitória sobre o exército inimigo.
A lógica humana busca por meio dos prazeres, lícitos ou ilícitos, encontrar a felicidade. Faz o que for preciso para eliminar a tristeza e o choro. Deus na sua lógica diz: "Felizes os que choram, pois, eles serão consolados" (Mt 5:4).
Ame os que te amam; valorize quem te dá valor; alguém te fez mal? vingue-se, afinal, “a vingança é um prato que se come frio”. Esta é a lógica humana. Deus em sua lógica ensina: ame os seus inimigos, perdoe aqueles que te ofenderam, ore pelos que te perseguem.
A lógica humana diz: quanto mais se tem, melhor. Deus ensina: é melhor repartir do que receber.
Contrário à lógica humana Deus afirma que os últimos serão os primeiros; que ele não veio chamar justos, mas, pecadores; que não é o que entra no homem que contamina, mas o que sai, pois do coração provém toda imundície e maldade existente.
Assim, a sabedoria de Deus é vista pelo homem como louca, ela é humanamente ilógica. Por isso Deus a escondeu dos sábios e entendidos e revelou aos pequeninos, aos incultos, aos João-ninguém do mundo. Ele escolheu as coisas que não são para confundir as que são.
Os gregos, senhores da lógica, buscavam conhecimento. Os judeus, senhores dos oráculos, buscavam sinais. Diante deles se manifesta àquele que detém todos os tesouros da sabedoria. Ele se revela em glória aos pequeninos.
Os sábios e poderosos não o reconhecem, e rejeitam o Senhor da lógica, expulsando-o do mundo, para continuar na inútil busca por conhecimento e sinais.
Por isso, somente os que se deleitam na loucura divina entendem porque "naquela mesma hora exultou Jesus no Espírito Santo, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado?" (Lc 10:21)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A CASTIDADE

Todos chamados ao verdadeiro amor

«Chamados ao verdadeiro amor. O ser humano, enquanto imagem de Deus, é criado para amar. Esta verdade foi-nos revelada plenamente no Novo Testamento, juntamente com o mistério da vida intratrinitária: “Deus é amor (1 Jo 4,8) e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor [o Pai ama o Filho e o Filho o Pai, e o Amor que deles procede e os une é o Espírito Santo, Amor substancial de Deus]. Criando-a à sua imagem, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano”. Assim se expressa, no n.8, um importante documento do Conselho pontifício para a família, de 8/12/1995: Sexualidade humana: verdade e significado (que inclui uma citação da Exortação apostólica Familiaris consortio, de João Paulo II, n. 11)).
«A pessoa é, portanto – continua o citado documento, no n. 9 –, capaz de um tipo de amor superior: não o amor de concupiscência, que vê só objetos com que satisfazer os próprios apetites, mas o amor de amizade e oblatividade, capaz de reconhecer e amar as pessoas por si mesmas. É um amor capaz de generosidade, à semelhança do amor de Deus; quer-se bem ao outro porque se reconhece que é digno de ser amado. É um amor que gera a comunhão entre as pessoas, visto que cada um considera o bem do outro como próprio. É um dom de si feito àquele que se ama [...]. Cada ser humano é chamado ao amor de amizade e oblatividade; e é libertado da tendência ao egoísmo pelo amor de outros [...], definitivamente por Deus [pelo amor de Deus], de quem procede todo o amor verdadeiro e em cujo amor somente a pessoa humana descobre até que ponto é amada».
Entende-se, assim, que São Paulo resumisse a vida cristã dizendo: Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados. Vivei no amor, a exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor (Ef 5,1-2). O modelo de todo amor cristão (do amor a Deus, do amor dos esposos, do amor entre pais e filhos, do amor sincero entre amigos) é a entrega de Cristo, é a figura de Jesus com o Coração trespassado na Cruz, que Bento XVI não se cansa de propor como imagem perfeita do amor cristão (cf. Encíclica Deus caritas est, n. 12).
Este amor-doação, que faz viver em função dos outros, tem duas dimensões primordiais, vocacionais, na vida dos cristãos:

1ª. A vocação para a entrega total da pessoa, alma e corpo, na castidade perfeita, no celibato por amor a Deus; e também como disponibilidade plena para o serviço do próximo (celibato apostólico). Jesus, após falar de que o matrimônio é indissolúvel, dirigiu-se aos discípulos, que, por motivos egoístas, comentavam que se a situação do homem com a mulher é assim, é melhor não casar-se, e disse-lhes, com expressão gráfica: Nem todos são capazes de entender isso, mas só aqueles a quem é concedido. De fato, existem homens impossibilitados de casar-se, porque nasceram assim; outros ainda, por causa do Reino dos Céus, se fizeram incapazes do casamento. Quem puder entender, que entenda (Mt 19,10-12).
Também São Paulo, seguindo os ensinamentos de Cristo, escreve: O homem não-casado é solícito pelas coisas do Senhor e procura agradar o Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, e procura agradar à sua mulher. E, assim, está dividido [...]. Do mesmo modo, a mulher não-casada, a virgem, preocupa-se com as coisas do Senhor e procura ser santa de corpo e espírito. Mas a que é casada preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar ao seu marido. Digo isto para o vosso próprio bem e não para vos armar um laço. O que eu desejo é levar-vos ao que é melhor e à dedicação integral ao Senhor, sem outras preocupações (1 Cor 7,32-35).

2ª. A vocação de entrega de amor no matrimônio, que tem como modelo a entrega de Cristo à sua Igreja (“esposa de Cristo”): Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a Igreja e se entregou por ela [...]. Este mistério é grande – eu digo isso em referência a Cristo e à Igreja (Ef 5,25.32).
«As pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal», lembra o Catecismo da Igreja (n. 2349). E o documento Sexualidade humana: verdade e significado, n. 20, comenta que os casados devem «estar conscientes de que no seu amor está presente o amor de Deus e, por isso, também a sua doação sexual deverá ser vivida no respeito de Deus e do Seu desígnio de amor, com fidelidade, honra e generosidade para com o cônjuge e para com a vida que pode surgir do seu gesto de amor. Só dessa maneira ela se pode tornar expressão da caridade».
«Quando tal amor [cristão] se realiza no matrimônio – diz ainda o documento sobre a sexualidade humana (nn. 11 ss.) –, o dom de si exprime, por intermédio do corpo, a complementaridade e a totalidade do dom; o amor conjugal torna-se, então, força que enriquece e faz crescer as pessoas e, ao mesmo tempo, contribui para alimentar a civilização do amor; quando, pelo contrário, falta o sentido e o significado do dom na sexualidade, acontece uma civilização das «coisas» e não das «pessoas»; uma civilização em que as pessoas se usam como se usam as coisas. No contexto da civilização do desfrute, a mulher pode tornar-se para o homem um objeto, os filhos um obstáculo para os pais».
«É, sem dúvida – acrescenta –, um amor exigente. Mas nisto mesmo está a sua beleza: no fato de ser exigente, porque deste modo constrói o verdadeiro bem do homem e irradia-o também sobre os outros».
Amor grande e exigente
Este desígnio divino sobre o homem – criatura espiritual e corporal, criada à imagem e semelhança de Deus, elevada à condição de filho de Deus, membro do Corpo de Cristo e templo do Espírito Santo –, essa vocação primordial e essencial para o Amor, dá à sexualidade humana, em todas as situações (virgindade, celibato, casamento) uma dimensão infinitamente mais elevada e qualitativamente diferente, essencialmente diferente, do sexo puramente biológico e instintivo dos animais.
A virtude que caracteriza esse modo cristão de viver a sexualidade é a castidade. E, sendo uma virtude, deve tender, por definição – como todas as virtudes –, ao fim da vocação do cristão: a santidade.
Esse ideal de santidade é expresso, com vigor e clareza, numa das homilias de São Josemaria Escrivá: «Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação... Que cada um saiba usar o seu corpo santa e honestamente, não se abandonando às paixões, como fazem os pagãos, que não conhecem a Deus (1 Tes 4, 3-5). Pertencemos totalmente a Deus, de alma e corpo, com a carne e com os ossos, com os sentidos e com as potências. Rogai-lhe com confiança: Jesus, guarda o nosso coração! Um coração grande, forte e terno e afetuoso e delicado, transbordante de caridade para contigo, a fim de servirmos a todas as almas».
«O nosso corpo – continua a dizer –é santo, templo de Deus, precisa São Paulo. Esta exclamação do Apóstolo traz-me à memória a chamada universal à santidade que o Mestre dirige aos homens: Estote vos perfecti sicut et Pater vester caelestis perfectus est (Mt 5,48). O Senhor pede a todos, sem discriminações de nenhum gênero, correspondência à graça; exige de cada um, conforme a sua situação pessoal, a prática de virtudes próprias dos filhos de Deus». (Amigos de Deus, n. 177).
Não podemos esquecer, porém, que o ser humano carrega consigo as inclinações egoístas procedentes da desordem do pecado (original e pessoal), e que experimenta em si mesmo inclinações contraditórias, de modo que se trava uma luta entre a carne e o espírito (Gal 5,16-17), entre o homem velho e o homem novo (Ef 4,22-24). É por isso que a castidade só se pode viver, de acordo com o plano de Deus, com o auxílio da graça e com o esforço pessoal da luta ascética, especialmente com o exercício da virtude da temperança (do autodomínio). Por isso, o documento sobre a sexualidade, que acima citamos, indica: «Tudo isto exige o autodomínio, condição necessária para se ser capaz do dom de si. As crianças e os jovens [e os adultos] devem ser encorajados a estimar e praticar o autocontrole e a renúncia, a viver de modo ordenado, a fazer sacrifícios pessoais, em espírito de amor de Deus, de auto-respeito e de generosidade para com os outros, sem sufocar os sentimentos e as tendências, mas canalizando-os numa vida virtuosa” (n. 58).
Neste mesmo sentido, o Catecismo da Igreja Católica recorda que «a castidade supõe uma aprendizagem do domínio de si, que é uma pedagogia da liberdade humana. A alternativa é clara: ou o homem comanda as suas paixões e alcança a paz, ou se deixa comandar por elas e torna-se infeliz» (n. 2339).
«Para alguns, que se encontram em ambientes em que se ofende e se deprecia a castidade – acrescenta ainda o documento Sexualidade humana: verdade e significado (n. 19) –, viver de modo casto pode exigir uma luta dura, às vezes heróica. De qualquer maneira, com a graça de Cristo, que brota do seu amor esponsal pela Igreja, todos podem viver castamente mesmo que se encontrem em ambientes pouco favoráveis».
A castidade é um ideal, uma virtude que deve ser conquistada
Já os primeiros cristãos, que tiveram que viver num mundo tremendamente afetado pela corrupção dos costumes, praticavam a virtude da castidade de um modo inédito, que admirava e chocava os pagãos, acostumados a toda a sorte de devassidões. Alguns cristãos inclusive, em épocas de perseguição, foram denunciados como tais e levados aos tribunais pagãos precisamente porque eram castos: só isso já constituía um cartão de identidade. Para o pagão de então, que tinha no prazer material o máximo ideal de felicidade, a luta pela castidade era inconcebível, e a prática da castidade era julgada impossível. O “pagão” atual pensa da mesma forma.
É preciso, por isso, que os cristãos nos compenetremos da convicção de que a castidade, apesar da incompreensão quase absoluta da maioria, é um ideal grande, é uma meta necessária para a realização “humana” e cristã, é uma conquista possível e acessível. Não “nasce”, porém, sozinha: como toda virtude humana, como toda qualidade moral habitual, tem que ser adquirida; como as outras virtudes morais do cristão, deve forjar-se - no cadinho onde se fundem a graça de Deus e o esforço pessoal - mediante a oração e luta por ordenar as paixões de acordo com a reta razão e a fé. Mas essa luta é impossível sem a mortificação.
Em suma, a castidade é, simultaneamente, um dom que é preciso pedir a Deus (cf. S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 118), e uma virtude que deve se conquistar, aperfeiçoar e crescer (cf. Id., Forja, n. 91), mediante o esforço generoso da nossa correspondência à graça.
«Com o espírito de Deus – diz São Josemaria –, a castidade não se torna um peso aborrecido e humilhante. É uma afirmação jubilosa: o querer, o domínio de si, o vencimento próprio, não é a carne que o dá nem procede do instinto; procede da vontade, sobretudo se está unida à Vontade do Senhor. Para sermos castos - e não somente continentes ou honestos -, temos que submeter as paixões à razão, mas por um motivo alto, por um impulso de Amor».
«Comparo esta virtude a umas asas que nos permitem propagar os preceitos, a doutrina de Deus, por todos os ambientes da terra, sem temor a ficarmos enlameados. As asas - mesmo as dessas aves majestosas que sobem mais alto que as nuvens - pesam, e muito. Mas se faltassem, não haveria vôo. Gravai-o na vossa cabeça, decididos a não ceder se notais a mordida da tentação, que se insinua apresentando a pureza como uma carga insuportável. Ânimo! Para o alto! Até o sol, à caça do Amor» (Amigos de Deus, n. 177).
O ideal do cristão não se contenta só com amar e praticar pessoalmente a castidade, mas sente a necessidade, a missão – especialmente num mundo que cada vez mais afunda no niilismo sem sentido e no hedonismo egoísta – de empenhar-se numa «cruzada de virilidade e de pureza que enfrente e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta» (Caminho 121).
É interessante, neste ponto, lembrar um comentário de Santo Tomas de Aquino, que hoje é de uma atualidade plena. Diz o santo doutor, na Suma Teológica (II-II, q.142, a. 2 e 3) que a maior parte dos pecados se cometem não porque o homem seja levado a eles pelas suas inclinações naturais, mas pelo escândalo [maus exemplos, espetáculos, etc.], que provoca uma super-excitação artificial das paixões. Daí também a necessidade de unir, ao amor, a luta ascética, também com caráter profilático: o esforço por evitar colocar-se voluntariamente nas ocasiões de pecado, na fogueira da tentação.
A aquisição e cultivo da virtude da castidade
No mundo atual, fortemente erotizado, é evidente que a mortificação se torna mais necessária do que em épocas do passado recente. Por toda a parte – gente mal-vestida na rua, outdoors, espetáculos, jornais, revistas, livros, Internet - há uma agressão contínua à castidade, uma estimulação artificial e massiva da fisiologia, da simples genitalidade animal, sem o menor contexto de grandeza e amor. Sexo pelo sexo. Sexo como consumo e prazer (Esta parte da palestra recolhe vários textos e idéias do livro de F. Faus Autodomínio: elogio da temperança, pp. 72 a 83).
O papel da mortificação, nesta batalha do cristão (e de qualquer ser humano honesto), é mais do que nunca um “não” sereno e corajoso a esses incentivos artificiais, absolutamente necessário para poder dizer “sim” à beleza, à grandeza e à dignidade do amor; à grandeza, em suma, da alma e do corpo dos filhos de Deus. Por isso, da mesma forma que devemos dizer um “não” rotundo à droga, para poder dizer um “sim” à vida e à preservação da saúde física e psíquica, temos que saber dizer o mesmo “não” a esses estímulos degradantes, para sermos capazes de dizer “sim” ao amor, e à beleza da sexualidade própria de um filho de Deus, em que o amor de Deus, a alma e o corpo se integram numa harmonia equilibrada e perfeita.
Daí a necessidade desse autocontrole que a Igreja nos aconselha como meio necessário – contando sempre com a força dos Sacramentos e da oração – para manter, como diria São Josemaria Escrivá, «a juventude do amor em qualquer estado de vida» (É Cristo que passa, n. 25). De fato, é maravilhoso constatar que não há amor mais jovem, mais feliz e mais bonito que o dos casais que vêem o matrimônio e a família como uma vocação divina para a santidade– sacramento grande, diz São Paulo (Ef 5,32) – e uma missão na sociedade; e o dos homens e mulheres que decidem entregar a vida inteira, por amor, ao serviço de Cristo e dos outros, oferecendo a Deus com alegria a renúncia ao sexo, no estado de celibato voluntariamente assumido.
«E agora eu te pergunto – diz São Josemaria –: como é que enfrentas esta peleja? Bem sabes que a luta, se a manténs desde o princípio, já está vencida. Afasta-te imediatamente do perigo, logo que percebas as primeiras chispas da paixão, e mesmo antes. Fala, além disso, imediatamente com quem dirige a tua alma; melhor antes, se for possível, porque, se abrimos o coração de par em par, não seremos derrotados. Um ato e outro formam um hábito, uma inclinação, uma facilidade. Por isso é necessário batalhar para alcançar o hábito da virtude, o ato da mortificação , para não repelir o Amor dos amores» (Amigos de Deus, n. 182) .
Nesta “batalha” santa, em primeiro lugar é importante a mortificação da gula. O autodomínio no comer e no beber ajuda-nos, mais do que imaginamos, a manter o equilíbrio alegre e sadio da castidade. «Tenho para mim – afirmava o abade João Cassiano (século V) – que não poderemos jamais reprimir o aguilhão da carne, se antes não conseguirmos refrear os desejos da gula».
Ao mesmo tempo, faz-nos falta cuidar delicadamente da mortificação dos olhos, janelas abertas ao mundo e receptores principais da chuva constante de incentivos eróticos que, infelizmente, há por toda a parte. Quem se estima a si mesmo, como víamos antes, sabe dizer “não” (“não estou disposto a olhar tudo pela rua, nem a comprar revistas pornográficas, nem a fuçar em programas noturnos na tv, nem a alugar fitas eróticas, nem a pesquisar no lixo sexual da Internet”); e diz esse “não” − insisto − porque está decidido a dizer “sim” a um ideal de amor muito maior do que o prazer carnal egoísta e descomprometido que faz o homem descer abaixo do nível dos bichos (que, diga-se de passagem, são em geral bem mais “castos” do que os homens,).
Que outras armas vamos empregar para alcançar a pureza cristã? Recorda-as também São Josemaría (cf. Amigos de Deus, n. 185): «Cuidai da castidade com esmero, e também dessas outras virtudes que formam o seu cortejo - a modéstia e o pudor -, que vêm a ser como que a sua salvaguarda. Não passeis com ligeireza por cima dessas normas que são tão eficazes para nos conservarmos dignos do olhar de Deus: a guarda atenta dos sentidos e do coração; a valentia - a valentia de ser covarde - para fugir das ocasiões...»:
Comecemos pela «“valentia” de ser covarde, para fugir das ocasiões», que já antes mencionávamos. Na maior parte dos casos, este é o grande segredo para não ter que repetir, de modo triste e insincero, aquela velha desculpa de que “a carne é fraca” e eu não consigo me segurar. Fugir das “ocasiões” é evitar os lugares (um apartamento vazio, certas boates, bares, danceterias, etc.), as situações (um carro estacionado em lugar escuro) e as pessoas que facilmente nos podem arrastar para a simples explosão genital (p.e., certos reveillons e carnavais comemorados em hotéis ou clubes, em que a promiscuidade de rapazes e moças – de mistura com álcool, drogas e dança quase orgiástica – é convite quase inesquivável a cair nos maiores abusos sexuais).
Depois, lembremos «a guarda atenta dos sentidos e do coração». Em primeiro lugar, da vista, da curiosidade mórbida, por vezes quase que obsessiva e compulsiva; depois, poderíamos recordar a importância de guardar também o ouvido, pequeno bueiro onde são despejadas constantemente gracinhas sujas; e o tato, para não cair em familiaridades e manifestações de afeto pegajosas, bastante "suspeitas", especialmente com pessoas do outro sexo, que muita vez equivalem a catar sorrateiramente migalhas de sensualidade, enquanto se finge ser amável e cordial; e ainda o controle, importantíssimo, dos chamados “sentidos internos”, a imaginação e a memória.
Reconheçamos que noventa por cento dos desvarios sexuais procedem do descontrole destes dois sentidos internos. Deixar a imaginação à solta – alimentada muitas vezes pelas recordações de pecados cometidos, de conversas, ou por filmes, por leituras, por imagens visuais procuradas nas revistas, na Internet ou na tv – é a mesma coisa que escancarar as janelas da alma a uma série de tentações, constantes e progressivas, que entram como uma revoada de cupins; é a mesma coisa que acender um caldeirão de aprendiz de bruxo, de onde podem sair todas as torpezas, abusos e anomalias. Quem é dono da imaginação, tem noventa por cento ganho para ser, com fortaleza, dono e senhor dos seus impulsos sexuais e dos seus sentimentos e, portanto, do seu amor. Este autodomínio do pensamento é a chamada “mortificação interior”, tanto ou mais importante para o senhorio da vontade como a “mortificação dos sentidos”.
Finalmente, temos de repisar a importância primordial dos meios sobrenaturais, que exigem a concretização de propósitos e esforços perseverantes: «O trato assíduo com o Senhor através da Eucaristia [...]. A freqüência dos sacramentos, de modo particular [além da Eucaristia] a Confissão sacramental; a sinceridade plena na direção espiritual pessoal; a dor, a contrição, a reparação depois das faltas, e tudo ungido com uma terna devoção a Nossa Senhora, para que Ela nos obtenha de Deus o dom de uma vida santa e limpa» (São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, cf. nn. 185 e 186).
Vivendo assim, confirmaremos com a nossa vida e saborearemos com alegria a verdade destas palavras de São Josemaria Escrivá: «A castidade – a de cada um no seu estado: solteiro, casado, viúvo, sacerdote – é uma triunfante afirmação do Amor» (Sulco, n. 831).

A SOMBRA DO PECADO E O AMOR

O amor de Cristo supera o mal de todos os pecados

É evidente que o mal, a realidade do pecado, se estende como uma sombra maléfica sobre todas as manifestações da vida humana e, com demasiada freqüência, parece ganhar terreno sobre o bem. É assim desde que o pecado foi introduzido no mundo, no primeiro capítulo da nossa história, pelo orgulho egoísta do homem, instigado pelo Maligno (Gên 3,1 ss).
Basta abrirmos os olhos para ver a sombra do pecado penetrando, em primeiro lugar, nos corações dos homens, dos quais –como dizia Jesus – sai tudo (Mat 15,18): maus pensamentos, maus juízos, ódio, orgulho, vaidade, inveja, ambição, cobiça, cinismo, incredulidade, desprezo da verdade e do bem, menosprezo dos pequeninos...
A sombra do pecado penetra também nas famílias: orgulho, egoísmo, impaciência e agressividade, discussões, maus tratos, infidelidade, indiferença, incompreensão e teimosia que –repetindo-se dia-a-dia e gota-a-gota – acabam por constituir uma verdadeira tortura moral...
A sombra do pecado penetra igualmente na vida profissional e social: injustiça nas relações de trabalho e nas comerciais, exploração iníqua, mentira, trapaça, corrupção, competitividade desleal, falta de palavra, desrespeito pelo ser humano, racismo, discriminações, falta de solidariedade e de caridade, falta de responsabilidade, desonestidade na gestão da coisa pública, interesses mesquinhos espezinhando o interesse do povo... E o avanço agressivo, potencializado pela mídia e a propaganda, das três ondas avassaladoras da pornografia, a droga e a violência, que arrasam a vida e o amor. E, nos cumes do mal, o crime que, nos séculos futuros, virá a ser o horror inacreditável da nossa modernidade (como o são, para nós, os campos de concentração nazistas e os gulag soviéticos): o assassinato em massa –com o sorriso cínico nos lábios e a indiferença na alma – de milhões de bebês inocentes, com a proteção da lei ou, pelo menos, do lobby das ativistas pro choice. Todos os meninos inocentes que, após o nascimento de Cristo, foram degolados por Herodes não chegam a ser nem metade do número de bebês trucidados, esquartejados num só dia em muitas clínicas de aborto...
Passam-se os séculos, revezam-se os milênios, e as ideologias e sistemas que se sucedem não fazem mais que evidenciar que o homem é incapaz de erradicar o mal do homem. O homem é incapaz de salvar-se, de libertar-se sozinho do mal primordial, raiz de todos os males: o pecado.
Só o Amor de Deus pode salvar-nos. Só o Amor de Deus realizou, com o sacrifício da Cruz, a nossa salvação.
“Cristo –escreve João Paulo II- vai ao encontro da sua Paixão e Morte com plena consciência da missão que deve realizar exatamente desse modo. É por meio deste seu sofrimento que Ele tem que fazer com que «o homem não pereça, mas tenha a vida eterna». É precisamente por meio da sua Cruz que Ele deve atingir as raízes do mal, que se embrenham na história do homem e nas almas humanas. Ë precisamente por meio da Cruz que Ele deve realizar a obra da salvação. Esta obra, no desígnio do amor eterno, tem um caráter redentor”.
Lançando mais uma luz sobre o sentido do sacrifício de Cristo na Cruz, o Papa acrescenta: “Com o seu sofrimento, os pecados são cancelados precisamente porque só Ele, como Filho Unigênito, podia tomá-los sobre si, assumi-los com aquele amor para com o Pai que supera o mal de todos os pecados; num certo sentido, ele aniquila este mal, no plano espiritual das relações entre Deus e a humanidade, e enche o espaço assim criado com o bem” (Carta Apostólica Salvifici doloris, 11-02-1984, n. 16).

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A ALEGRIA DE SERVIR

Um incidente que ilustra

São Paulo, no grande hino à caridade do capítulo treze da primeira Carta aos Coríntios, diz que o amor não busca os seus próprios interesses (1 Cor, 13,5), e exorta também os cristãos de Filipos a nada fazer por espírito de partido ou vanglória, mas – como ele escreve – “que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros” (Fil 2,3-4). Essas palavras são um eco da constante exortação de Cristo a servir, atitude imprescindível para imitá-Lo: O Filho do homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20,28).
Estas última palavras pronunciou-as Cristo para encerrar um triste incidente que se deu entre os Apóstolos. Vale a pena recordá-lo..., para meditar e aprender.
Aconteceu que, indo Jesus a caminho de Jerusalém com os seus discípulos, chegaram-se a Ele dois irmãos, Tiago e João, acompanhados pela mãe, Salomé, uma das mulheres que seguiam e serviam o Senhor (cfr. Mc 15,40). A mãe adotou um ar solene, um olhar suplicante: Prostrou-se diante de Jesus, para lhe fazer um pedido. E que pediu? O melhor para os filhos, como é próprio de uma mãe: Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda. Nada menos! Pedia os dois primeiros lugares naquele Reino que tanto ela como os filhos ainda imaginavam como um reino terreno.
Jesus olhou-a, imagino que carinhosamente divertido. Sorrindo, dirigiu-se aos dois que tinham vindo conchavados com a mãe, e disse-lhes: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu devo beber? Cristo ia ser, certamente, Rei, mas o seu Reino seria conquistado pela Cruz, por meio da sua entrega redentora. Eles não sabiam ainda o que isso significava, saberiam mais tarde; mas, mesmo assim, com simplicidade inconsciente, respondem sem hesitar: Podemos! Como que a dizer: “Estamos dispostos a tudo, contanto que nos tenhas, no Reino, como homens de confiança, bem perto de ti”.
Foi aí que irrompeu o conflito. Os dez outros [Apóstolos], que haviam ouvido tudo, indignaram-se contra os dois irmãos. Pronto, já estava armada a briga. O Evangelho não a descreve com detalhes, mas todos sabemos as caras que fazemos, as palavras que dizemos e o tom com que falamos quando estamos morrendo de raiva. No caso, morrendo de inveja: “Quem pensam que são esses dois, que querem passar à frente de todos nós, e ainda por cima com artimanhas de politicagem materna?”
Jesus, calmo e entristecido pelo espetáculo, chamou-os. E disse-lhes: Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós faça-se vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro faça-se vosso escravo. Assim como o Filho do homem – o próprio Jesus – veio, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20, 20-28).
A ambição dos dois irmãos, e a explosão irritada dos outros dez, deram ensejo ao Senhor para expor uma das lições mais belas do Evangelho: o espírito de serviço. Por outras palavras, diz-lhes: “Não se comparem, para ver se um é mais do que o outro; não se deixem arrastar pela inveja e uma competitividade vaidosa; pelo contrário, a sua ambição deve ser dar-se totalmente e servir, por amor, como Eu faço. Aí encontrarão a felicidade: servindo e dando alegrias, e não procurando a alegria vaidosa de ser mais que todos”.
Para servir, servir
Nos anos em que tive a felicidade de morar em Roma e ali conviver com São Josemaria Escrivá, inúmeras vezes estive numa sala de estar onde havia um abajur decorado, na cúpula, com a seguinte inscrição italiana: Per servire, servire – “Para servir, servir”. A mensagem era clara: para termos o espírito de serviço que é próprio do cristão, devemos pôr-nos em condições de ser úteis, e estar dispostos a servir realmente: duas coisas que se expressam com a mesma palavra servir.
Com efeito, servir significa, em primeiro lugar, que alguém é útil, serve, presta; da mesma maneira que dizemos das coisas materiais: “esta ferramenta serve; esse tecido não presta, não tem serventia”. Para servir, é preciso ter qualificação, preparo, condições pessoais para poder prestar determinados serviços.
Numa segunda acepção, o verbo servir indica o ato e o espírito de serviço: a atitude da pessoa prestativa, serviçal, dedicada, sacrificada. Para servir..., o único jeito é dedicar-se, servir mesmo.
Em ambos os sentidos, servir é caminhar na contramão do egocentrismo; é esforçar-se com generosidade em colaborar com o bem e a alegria dos outros.
Exame de consciência
Tendo presente o que acabamos de ver, talvez nos ajude a meditar e a falar com Deus um exame de consciência sobre como vivemos os dois sentidos desse verbo servir.
Primeiro: por que são tantas as ocasiões em que dizemos: “Não sei fazer, não tenho jeito, não tenho condições”? É lógico que não saibamos fazer tudo nem sejamos aptos para todas as tarefas. Mas há muitas coisas que deveríamos saber fazer. Por exemplo, um pai e uma mãe deveriam saber educar os filhos e, se não sabem, é porque não se deram ao trabalho de aprender, de formar-se, de preparar-se (o que é, para eles, um dever grave). Outro exemplo: uma mãe de família, por mais que tenha que trabalhar fora de casa, deveria saber cuidar com primor de todas as coisas que tornam um lar agradável, aconchegante e bem cuidado. Que pena ver mães com os filhos desleixados, mães que não sabem nem proporcionar uma comida variada e gostosa, nem frigir um ovo, nem meter a roupa na máquina de lavar sem que saia desfiada e desbotada. Se a mãe não sabe, é porque não foi responsável: deveria ter-se preparado. A sua inaptidão e despreparo rouba alegrias que deveria dar à família.
Segundo: assim como é muito cômodo não saber fazer as coisas, também é muito cômodo saber fazê-las, mas “ficar na moita”, esconder-se, mascarar-se, omitir-se. Estamos no segundo sentido da palavra servir.
Será que já percebemos a enorme capacidade inativa de ajudar (portanto, de servir), que todos nós temos? Que acha se, para não ficarmos na teoria, pegássemos um papel e um lápis e fizéssemos uma lista – em várias colunas – com as nossas possibilidades? Por exemplo, as seguintes:
– Primeira coluna: Pequenos serviços que eu poderia prestar, se fosse generoso, às pessoas da minha casa (pensando em todas elas, uma por uma). Serviços materiais (ordem, tarefas, compras, limpeza, atendimento da porta, do telefone, etc.) que posso fazer. Ajuda no estudo dos filhos. Auxílios mais profundos, de orientação, de aconselhamento moral e espiritual, de formação nas virtudes, que poderia dar e não dou...
– Segunda coluna: Pequenos serviços que poderia prestar – além dos “grandes” serviços do próprio trabalho – no meu ambiente profissional. Modos possíveis de auxiliar, facilitar e tornar mais amável o trabalho a colegas e subordinados. Será que podem contar comigo, se estão atribulados? Sabem que estou disposto a ouvir, e por isso me confidenciam as suas dificuldades?
– Terceira coluna: E no clube, no time de futebol, na turma de pescadores, na do mountain-bike, na dos integrantes da banda, será que não poderia ser mais prestativo, ter mais iniciativas, ser um apoio maior, dar o couro quando é preciso preparar festas, churrascos e outros bons momentos?
– Quarta coluna: E com os necessitados, com os que sofrem? Que faço? Digo que não posso fazer nada, a não ser dar esmolas de vez em quando, uma contribuição para o orfanato e o dízimo na igreja? Digo que não sei falar, ensinar, dar aula e, por isso, não posso prestar serviços? Mas... posso visitar doentes. Posso fazer visitas a algum hospital ou asilo. Posso prestar algum serviço de voluntariado (uma vez por semana, uma vez por mês...) baseado nos meus conhecimentos profissionais (assessoria jurídica gratuita, assistência médica ou dentária, assistência técnica para a construção de casinhas populares, aulas de complementação, etc, etc).
Há, sem dúvida, outras colunas, que cada qual pode descobrir sozinho e preencher; mas sejam quantas forem, o que importa é tirar delas propósitos concretos de servir mais, muito mais, conscientes de que assim daremos as alegrias que devemos aos outros, e ao mesmo tempo, o nosso coração irá ficando mais cheio de alegria e mais próximo do coração de Cristo que não veio para ser servido, mas para servir, e do coração de Maria, quer só queria ser a serva do Senhor, pronta para fazer tudo quanto Ele lhe pedisse: Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38).

AS DIFICULDADES QUE FAZEM CRESCER


As dificuldades

Fazem cair ou subir
Todas as dificuldades pode ser, para nós, pedras de tropeço, becos sem saída onde paramos, caímos e nos machucamos; ou degraus que, com esforço, nos fazem subir. O que são para nós as dificuldades? Pedras, becos ou degraus?
É um fato evidente que não cresce aquele que fica marcando o passo num ritmo espiritual parado, de simples manutenção das suas virtudes e qualidades. “Já está bom assim”...
Não são poucos os homens com essa mentalidade, parados, que – como o equilibrista – se mantêm na corda bamba de uma “certa bondade”, mas não avançam um só passo. Os anos vão passando, eles continuam a ser bons, mas estão (aparentemente) sempre na mesma. Digo “aparentemente”, porque a alma nunca pode “ficar na mesma”. Há um velho adágio cristão, cheio de sabedoria e experiência, que afirma que, na vida espiritual, “não avançar é retroceder”.
Todos conhecemos casos surpreendentes de retrocessos. Trata-se de pessoas que, tendo oferecido durante longo tempo uma imagem de honestidade e bondade, de repente nos chocam com uma virada completamente inesperada. Um pai que, sem motivo aparente, larga a família; um profissional íntegro que um dia amanhece incrivelmente envolvido num desfalque; uma pessoa religiosa, católica praticante e atuante, que subitamente mergulha numa crise e abandona a fé...
Nestes casos, tudo parece indicar que houve um afundamento repentino e inexplicável. Mas a experiência da vida nos diz que, na maior parte das vezes, não foi assim. O que aconteceu foi que essas pessoas se conformaram com um espírito de “simples manutenção”, com ir levando as coisas sem um impulso de crescimento. Já fazia anos, talvez, que se arrastavam numa rotina sem vida, e essa rotina – como água fina que penetra pelas rachaduras de uma casa – foi desgastando a bondade e esvaziando as virtudes. Tal como na vida do corpo, a falta de renovação trouxe a necrose.
Este processo de deterioração provocado pela rotina observa-se, com muita freqüência, na gênese de boa parte dos problemas familiares. Podemos pensar numa família estável, bem constituída, em que pais e filhos se mantêm unidos pelos laços do carinho. É claro que, por melhor que seja o ambiente familiar, não faltam as dificuldades. Talvez sejam apenas as corriqueiras, mas, por serem muitas vezes repetidas, podem ir empanando insensivelmente o afeto, recobrindo de ferrugem invisível as boas vontades e as boas disposições. Então, à medida que o tempo passa, os atritos podem tornar-se mais freqüentes, a impaciência – provocada por minúcias insignificantes – mais áspera e repetida, e o mau humor ir ganhando terreno no relacionamento familiar. Certamente, não deixará de haver momentos em que os defeitos de um ou de outro se acentuem, e então a irritação poderá tornar-se explosiva. Bem sabemos como uma reação brusca – um comentário ríspido, um surto de ira, uma crítica ferina – costuma provocar outra reação mais brusca ainda, e assim acaba-se dando origem a uma reação em cadeia de mágoas, acusações, decepções e desentendimentos capaz de desandar para um desfecho catastrófico.
A recusa de crescer
Caso nos perguntemos o que houve num processo deste tipo, possivelmente a primeira resposta que nos venha ao pensamento seja: houve dificuldades, uma chuva de pequenas dificuldades, uma poeira desgastante e insuportável de dificuldades.
No entanto, a resposta verdadeira é outra. O que houve foi uma recusa do dever moral de crescer. Na realidade, cada pequena dificuldade estava pedindo um pouco mais: um pouco mais de paciência, um pouco mais de generosidade, um pouco mais de abnegação e esquecimento próprio, um pouco mais de humildade... Cada dificuldade era um apelo para se crescer em algum aspecto de uma virtude, mas o coração estava acomodado e não foi capaz de dar esse algo mais.
Cada dificuldade, grande ou pequena, indica, por assim dizer, o tipo de crescimento espiritual que Deus espera de nós. Quando lutamos por superá-la, isto é, por estar à altura daquilo que a dificuldade nos exige – esse “pouco mais” de que falamos –, estamos dando um passo à frente e subimos até um nível de maturidade adequado que nos deixa em condições não só de evitar o desgaste, mas de nos tornarmos melhores.
Cristão normal – aquele que tem energias para viver moralmente bem – é aquele que consegue dar, ajudado por Deus, a resposta certa, com um novo ato de virtude, a cada nova situação que aparece: resposta de fé, ou de amor, ou de fortaleza, ou de sacrifício.
Se, em vez disso, permanece na manutenção rotineira dos seus hábitos, recusando-se a dar mais de si quando as circunstâncias lhe pedem maior virtude, ficará como que achatado e sem forças. Irá ficando “por baixo” dessas circunstâncias, moralmente defasado e, por isso mesmo, incapaz de dar uma resposta à altura do que é preciso. É natural que acabe sucumbindo. Aqui se encontra, em resumo, a explicação de muitos inexplicáveis.
Duas fraquezas
É importante que nos apercebamos de que existem no homem duas espécies de fraqueza, muito diferentes entre si: uma é a fraqueza natural – que poderíamos chamar sadia –, e que é própria das limitações de todo o ser humano (a fraqueza que também os santos experimentam); e outra é a fraqueza doentia, que resulta da apatia moral, da falta de ideais ou de luta por alcançá-los. Esta fraqueza doentia é a que deixa o homem desarmado perante os valores morais. As mesmas dificuldades que para o homem moralmente sadio são corriqueiras, que não passam de pequenas lutas diárias que se aceitam com naturalidade, para o doentio são intoleráveis, da mesma forma que o alimento são é insuportável para o estômago enfermo.
O “efeito” das dificuldades depende da atitude que adotarmos diante delas. A atitude certa, no caso, é a de aceitá-las sem protesto nem surpresa, como um incentivo e um belo desafio. “Cresce perante os obstáculos”, diz Caminho (n. 12). Esta pequena frase resume tudo o que agora procuramos comentar. É preciso não só contar com as dificuldades, mas aceitá-las de bom grado e até amá-las, uma vez que elas nos ajudam a construir, degrau a degrau, a escada que nos eleva até à maturidade moral.
Esta é a atitude do esportista, do pesquisador, do homem que se lança a uma nova iniciativa profissional. Ao começar a sua tarefa, está num ponto de partida e sabe que tem diante de si, a aguardá-lo, inúmeras dificuldades. Desde o início, tem consciência de que não se está propondo coisas fáceis e sem valor. Não está a fazer exercícios de repouso na rede. Está começando a lutar, tem um objetivo grande e empolgante – vencer um torneio, fazer uma descoberta científica, arrancar do nada um empreendimento –, e com gosto arregaça as mangas. Se há dificuldades, e necessariamente tem que havê-las, elas serão um estímulo diário, um motivo de criatividade e de melhor desempenho. Tudo isto, que é tão evidente nos ideais puramente humanos, às vezes parece obscurecer-se quando se trata do maior ideal, da maior grandeza do homem: a sua autêntica realização que é a realização espiritual e moral, a perfeição do homem enquanto homem e filho de Deus.
Quem tem grandeza moral nem sequer espera pelas dificuldades. Adianta-se e vai ao encontro delas. É a grandeza moral que o faz propor-se metas espiritualmente altas e árduas, recusando como verdadeira morte a instalação medíocre numa bondade morna.
Deste modo, o homem que se propôs a meta alta de viver o amor a sério, vai alentando no seu íntimo o desejo eficaz de se entregar cada dia mais a Deus e aos homens. Tudo o que faz lhe parece pouco. No fundo da alma, ecoa-lhe como uma música empolgante a palavra “mais”. Movido por esse afã, procura motivos e ocasiões de sacrificar-se, de renunciar a pequenos egoísmos, de servir e alegrar a vida dos outros. E então, quando se lhe apresentam as dificuldades, elas o encontram já a caminho da doação: são como o bastão que o atleta apanha com força, já em tensão de velocidade, na corrida de revezamento. O homem generoso não é surpreendido pelos obstáculos, pois não estaciona na bondade fácil, mas está em carreira acelerada para a bondade difícil.
A bondade difícil
Seria muito interessante que cada um de nós se perguntasse qual é a sua bondade difícil. Com um pouco de sinceridade, não demoraríamos a descobri-la. Para uns, é a abnegação, para outros a compreensão, para outros a intensidade e perfeição no trabalho, para outros a serena paciência... Para cada um, aquelas virtudes que, nos maus momentos, nos sentimos inclinados a julgar como impossíveis: “Eu não fui feito para isto, isto comigo não dá, nunca vou conseguir”.
Pois bem, essas bondades difíceis devem ser exatamente as nossas metas, voluntariamente abraçadas, no esforço de aperfeiçoamento moral. É nesses “obstáculos” que devemos “crescer”.
Triste coisa seria que nos contentássemos com as virtudes que brotam espontaneamente do nosso temperamento e dos nossos hábitos. Ficaríamos fadados ao raquitismo espiritual e nos fecharíamos numa mediocridade cristalizada e sem remédio. O “homem de manutenção”, de que falávamos, não tem propriamente virtudes firmes, tem antes o que poderíamos chamar “os defeitos das virtudes”, isto é, as manifestações desfibradas de algumas qualidades excessivamente atreladas ao seu modo de ser – tranqüilo, bonachão, ordeiro –, ou às suas manias – “gosto” de fazer isto ou aquilo –, ou aos seus hábitos inerciais. As virtudes boas são mesmo as difíceis. A estas é que o homem digno deste nome deve aspirar.
Depois de se propor essa meta, virá uma segunda parte. Como atingi-la? O que equivale a perguntar-se como enfrentar o lado difícil da bondade e crescer nele. Quando se “quer”, sempre existe um “como”. Os que nunca concretizam os modos práticos de melhorar são os que aspiram aos seus ideais sem sinceridade. Por serem incapazes de dizer “quero”, dizem apenas “quereria”, mas nem eles nem ninguém sabe como é que vão querer.
Sempre há algum modo de fincar o dente numa aspiração difícil. Sempre há pelo menos um modo de começar. “Concretiza – lê-se em Caminho –. Que os teus propósitos não sejam fogos de artifício, que brilham um instante para deixar, como realidade amarga, uma vareta de foguete, negra e inútil, que se joga fora com desprezo”(n. 247).
 claro que, para isto, é preciso saber dar o primeiro passo rumo à meta que nos propomos, e não arredar pé depois, mesmo que custe e custe muito. Com espírito esportivo, devemos tentar uma vez e outra, tendo a coragem e a humildade de “começar e recomeçar”, e tendo ao mesmo tempo a fortaleza de ser pacientes conosco próprios, porque a ascensão da montanha da grandeza moral é sempre lenta. Como numa construção, “para edificar é preciso sofrer (...). As mãos dos pedreiros ferem-se na aspereza da argamassa e, por muito manejarem a colher, tornam-se calosas e as suas unhas descuidadas. A pedra é resistente e pesada. Só obedece à força de marteladas. É teimosa e cheia de arestas pontiagudas e cortantes... Não seria possível construir sem martelo e sem ruído, sem violência nem golpes, por meio de um simples desejo? Todos os que têm medo da realidade esbanjaram assim o seu tempo em fantasias. Meu Deus, fazei-me amar o trabalho rude” (Pierre Charles: A oração de toda a hora).

O CAVALEIRO DO BARRILZINHO

O coração humano, enquanto não derrama uma lágrima de verdadeiro arrependimento, não possui o segredo da porta que dá acesso ao Amor de Deus.

É uma verdade que a consciência cristã de todos os tempos intuiu, mesmo que muitos não quisessem encará-la. Uma boa ilustração disto é a lenda relatada pelo rei Afonso, o Sábio, nas suas Cantigas, e que percorreu a cristandade medieval. Fala de um cavaleiro que, não suportando mais o peso das suas blasfêmias e crimes, foi procurar um sacerdote eremita para se confessar. Recebeu, como penitência, a ordem de encher de água um pequeno barril. Durante semanas e meses, tentou cumprir esse gesto, aparentemente tão simples, sem nada conseguir: mergulhava o recipiente em todos os rios e córregos, achegava-o a todas as fontes, mas o baldezinho ficava vazio. Até que um dia se sentou, voltou a pensar na sua má vida e em Deus, na sua miséria e no amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, que deu a vida por nós na Cruz. Caiu-lhe então no balde uma lágrima de verdadeira contrição – de dor de amor – , e o recipiente ficou imediatamente cheio até transbordar. Tinha cumprido a sua penitência.
Hoje, como sempre, e talvez mais do que nunca, é preciso que os cristãos reaprendam a derramar a lágrima que enche o barrilzinho. É tão comum o tipo de cristão satisfeito com a sua mediocridade desamorada, que não acha motivos para chorar os seus pecados! Quando muito, aceita a idéia de ser como um edifício que apenas precisa, vez por outra, de alguns retoques. E pode ser até que, com um assentimento teórico e quase nenhuma correspondência prática, admita além disso o postulado de que “todos temos que melhorar”. Faltar-lhe-á, no entanto, a consciência viva de que, mesmo que não pensasse em outra coisa senão na sua pouca generosidade para com um Deus que tanto o ama, já teria motivos mais que suficientes para chorar e pedir perdão, para se sentir um pobre endividado, e para se apressar a pagar com um amor total – que sempre há de revelar-se pequeno – o impagável amor de Deus. Se acrescentasse a isso o acúmulo dos seus pecados, negligências e infidelidades, a lágrima seria mais ardente e o propósito mais inflamado.
Onde está o nosso coração? Onde está a nossa consciência cristã? Talvez tenha ido definhando por tornar-se incapaz dessas lágrimas. E, por isso, não é de estranhar que toda uma sociedade, que ainda se chama cristã, cambaleie apoiada sobre homens que se julgam seguidores de Cristo, e em vez de serem esteios de aço são pontaletes de papel. Um cristianismo sem amor, um cristianismo sem ardor, é um triste arremedo do ideal divino cujo fogo Cristo veio trazer à terra (cf. Lc 12, 49). Um cristianismo que cada dia ceda um pouquinho, para se acomodar aos caprichos, às permissões e às mentiras do mundo, é uma trágica “farsa blasfema” (São Josemaria Escrivá, Sulco, n. 650).
O SACRAMENTO DO PERDÃO
Daí a importância que tem o aprendizado da “dor de Amor”; e daí ainda a importância que tem dar o devido valor a esse grande encontro das lágrimas do cristão com o Coração de Cristo, que se chama o Sacramento da Reconciliação, a Confissão.
São Josemaria Escrivá, apóstolo incansável do Sacramento do Perdão, falava da Confissão pondo em plena luz a sua grandeza e a sua divina eficácia: chamava-a “verdadeiro milagre do Amor de Deus. Neste Sacramento maravilhoso, o Senhor limpa a tua alma e te inunda de alegria e de força, para não desfaleceres no combate e para retornares sem cansaço a Deus, mesmo quando tudo te parecer estar às escuras” (cf. Amigos de Deus, n. 214). autêntica perspectiva do arrependimento, vivido na confissão sob a sua forma normal, isto é, a confissão individual com o sacerdote – pois esta é a única forma válida em circunstâncias não excepcionais – é a perspectiva do amor que luta por avançar; que se esforça por ir e voltar a Deus, por progredir sem interrupção; que pede perdão e torna a começar; é a perspectiva do amor que sabe querer e sabe doer-se, e por isso mesmo, como diria Santo Agostinho, “não pode ficar parado” (vacare non potest), antes é um contínuo crescimento.
“Quantas graças não temos que dar a Deus Nosso Senhor – acrescentava São Josemaria – por este Sacramento da sua misericórdia! Eu fico pasmado, comovido [...]. Não vos enternece um Deus que nos purifica, que nos limpa, que nos levanta...? Recorrei à Confissão, porque não é só para perdoar os pecados graves, ou leves, ou as faltas: é também para nos fortalecer, para cumular de graça a alma e dar-nos impulso, de modo que percorramos mais depressa o caminho; para que tenhamos também maior habilidade para combater e vencer; para que nos comportemos de tal maneira que saibamos viver com virtude e detestar o pecado” (cf. Folha informativa, n. 5, p. 4).
Como andam errados os que julgam desnecessária a confissão freqüente porque, como dizem, “só têm faltinhas leves”. Mesmo aceitando que isso seja verdade, poderíamos dizer-lhes com o autor de Caminho: “Que pena me dás enquanto não sentires dor dos teus pecados veniais! – Porque, até então, não terás começado a ter verdadeira vida interior” (n. 330).
É neste sentido que João Paulo II, recordando um constante ensinamento da Igreja, reafirmava: “A confissão renovada periodicamente, chamada de «devoção», sempre acompanhou na Igreja o caminho da santidade” (Alocução, 30/1/1981). A confissão freqüente sempre acompanhou e fomentou de maneira muito direta o progresso espiritual.
DELICADEZAS DE AMOR
Haverá alguém capaz de imaginar um amor que não tenha delicadezas? Alguém duvida de que, quando diminuem as pequenas atenções afetuosas entre os que se amam, esse amor esteja murchando? Então como é possível que nós, os filhos de Deus chamados a amá-lo com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças (Mc 12, 30), desprezemos essas delicadezas?
Qualquer apaixonado compreende que não é histerismo nem exagero neurótico derramar uma lágrima, enquanto se pedem desculpas à pessoa muito amada por um esquecimento miúdo, por uma desatenção pequenina. Há coisas que só se enxergam com os olhos do coração.
Vamos, então, agir assim com Deus. Reaprendamos ou aprendamos pela primeira vez a tratá-lo com as delicadezas do amor. Cairá então do nosso coração a casca endurecida que o recobre e nos deixa insensíveis, mergulhados na tibieza, com os olhos cegos para tudo o que estiver fora da roda do egoísmo; e se nos abrirá uma nova ânsia de amar. No belo hino litúrgico Stabat Mater, a Igreja move-nos a pedir a Nossa Senhora esse fervor renovado, baseado justamente na dor, nas lágrimas que salvam:
Eia Mater, fons amoris,
me sentire vim doloris
Fac, ut tecum lugeam.
Fac ut ardeat cor meum
in amando Christum Deum,
ut sibi complaceam.
(Faze, ó Mãe, fonte de amor,
que eu sinta o espinho da dor,
para contigo chorar.
Faze arder meu coração
de Cristo Deus na paixão,
para que o possa agradar).
No dia em que, sem angústia nem escrúpulos doentios, com paz no fundo da alma, nos tornarmos capazes de derramar uma pequena lágrima por termos sido esquecediços ou indelicados com Deus, por termos omitido a oração habitual, por termos faltado aos propósitos de melhoria que lhe oferecemos, por termos reincidido num pouco de ira, por termos perdido o tempo que Ele nos concede, por termos sido egoístas, por termos dito uma palavra que magoou o irmão..., nesse dia teremos passado na primeira prova da matéria mais importante da vida: a que se aprende na escola do Amor. Do Amor que Cristo veio trazer à terra, e que, desde então, é a bandeira, o ideal e a meta dos homens, nesta vida e por toda a eternidade.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

SIMBOLOS LITURGICOS

ALFAIAS LITÚRGICAS - Nome que se dá ao conjunto dos objetos litúrgicos usados nas celebrações. Deve-se também considerar aqui a Arte Sacra, que se estende, por sua vez, a tudo o que diz respeito ao culto e ao uso sagrado.

"Com especial zelo a Igreja cuidou que as sagradas alfaias servissem digna e belamente ao decoro do culto, admitindo aquelas mudanças ou na matéria, ou na forma, ou na ornamentação que o progresso da técnica da arte trouxe no decorrer dos tempos" (SC 122c).
Aqui, pode-se ver como a reforma conciliar do Vaticano II se preocupa com a dignidade das coisas sagradas. Templo, altar, sacrário, imagens, livros litúrgicos, vestes e paramentos, e todos os objetos devem, pois, manifestar a dignidade do culto, que, como expressão viva de fé, identifica-se com a natureza de Deus, a quem o povo, congregado pelo Filho e na luz do Espírito Santo, adora "em espírito e verdade" (Cf. Jo 4,23-24).

LIVROS LITURGICOS.
MISSAL - É o livro sagrado que traz as orações do santo sacrifício da missa para o serviço do sacerdote que celebra. O missal atual foi revisto depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, aprovado por Sua Santidade o Papa Paulo VI .

LECIONÁRIO Livro que contém as leituras para as santas celebrações. São três:
I - Lecionário dominical - Contém as leituras dos domingos e de algumas solenidades e festas.
II - Lecionário semanal - Contém as leituras dos dias de semana. A primeira leitura e o salmo responsorial estão classificados por ano par e ímpar. O evangelho é sempre o mesmo para os dois anos.
II - Lecionário santoral - Contém as leituras para as celebrações dos santos. Nele também constam as leituras para uso na administração de sacramentos e para diversas circunstâncias.
EVANGELIÁRIO - É o livro que contém os texto do evangelho para as celebrações dominicais e para as grandes solenidades.
ESPAÇO CELEBRATICO                                                                                                                       ALTAR - Altar, em geral, é o lugar onde se oferece o santo sacrifício à Deus. Para a santa igreja catolica, o altar é uma espécie de mesa retngular, feita de pedra ou de madeira, lembrando a mesa do cenáculo onda o Senhor Jesus instituiu o sacramento de Seu Sacrossanto Corpo e Preciosissimo Sangue.

AMBÃO - Chama-se também Mesa da Palavra. É a estante de onde se proclama a palavra de Deus. Não deve ser confundida com a estante do comentador e do animador do canto. Esta não deve ter o mesmo destaque do ambão.
CREDÊNCIA - É uma mesinha que fica perto do altar, do lado da epístola, onde se dispõe os objetos liturgicos.

A IMPORTANCIA DA LITURGIA

A Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo é a fonte de onde emana toda a sua força. Pois os trabalhos apostólicos se ordenam a isto: que todos feitos pela fé e pelo Batismo filhos de Deus, juntos se reúnam, louvem a Deus no meio da Igreja, participem do sacrifício e comam a ceia do Senhor”.(Sacrossantum Consilium 10)

Quando ouvimos falar em Liturgia, normalmente nos lembramos de normas de celebrações; manuseio de objetos sagrados; coisas ligadas à sacristia. Mas, com certeza, estas são idéias falsas, pois Liturgia é algo muito mais profundo: é a alma da Igreja.
A palavra deriva de dois vocábulos gregos: LEITON= povo e ERGON= ação, serviço dedicado. Na Sagrada Escritura, a palavra aparece pela primeira vez na tradução grega (LXX) , onde o culto e todos os ritos da Lei de Moisés são assim chamados. No Novo Testamento, é principalmente nos escritos de Paulo que encontramos o termo, tendo três sentidos diferentes: um profano, quando designa qualquer serviço pessoal ou coletivo; um cúltico designando rituais de celebração e um vivencial, quando se refere ao culto a Deus. Na Didaquè, a palavra vai designar a ação de Cristo. O culto prestado por Cristo ao Pai.
Na primeira constituição disciplinar promulgada pelo Concílio Vaticano II, que trata da reforma e do incremento da Liturgia, temos: “Toda celebração litúrgica, como obra de Cristo sacerdote, e de Seu Corpo, que é a Igreja, é uma ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja. (SC 7)”.
São duas as dimensões litúrgicas: glorificação de Deus e santificação do homem. Uma completa a outra, uma é conseqüência da outra. Enquanto glorificamos a Deus nos santificamos. A Liturgia deve sempre nos levar a uma maior aproximação com Deus, o que sempre nos levará a uma atitude de conversão. Sendo rica em símbolos, todos se referem à realidade de Jesus Cristo e do Reino de Deus. Toda esta rica simbologia está impregnada do Espírito de Jesus Ressuscitado, para que esta celebração da manifestação misericordiosa de Deus para com seu povo seja uma ação orante que atinge o coração, provocando uma verdadeira relação de amor com Deus que veio fazer aliança conosco. Tudo deverá nos levar sempre a sentimentos de mudança, de renovação. Não podemos jamais, sair de uma celebração do mesmo modo com entramos. Ela sempre deverá nos levar a uma vida nova em Cristo.
Sendo a Liturgia ação de Deus e de seu povo, ela não pode nunca ser ação de algumas pessoas ou de um determinado grupo ou movimento. Quem celebra é sempre o povo de Deus, o Corpo de Cristo, uma comunidade reunida por Cristo e em Cristo na unidade do Espírito Santo. Não se trata aqui de um povo qualquer, mas de um povo formado por pessoas que acolhendo o convite de Deus pela escuta da Palavra se reúne em assembléia para celebrar.
Liturgia não é só celebração da missa dominical. Nela estão entendidas todas as formas que a Igreja tem para celebrar o mistério cristão, todas as formas rituais que permitem vivenciar e experimentar a íntima comunhão com Deus e com os irmãos. - (doc 43 CNBB) Para isto é de grande importância à participação ativa dos fiéis. E para promover esta ativa participação, devem-se “incentivar as aclamações do povo, as respostas, as salmodias, as antífonas e os cânticos, bem como as ações e gestos e o porte do corpo. Há seu tempo seja também guardado o silêncio sagrado”.(SC 30)
“Na Liturgia terrena, antegozando, participamos da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos”.(SC 8 - Fl 3,20)
Na liturgia, ação sagrada por excelência, constitui o ápice para o qual tende a ação da igreja e ao mesmo tempo a fonte de que emana a sua força vital. Mediante a liturgia, Cristo continua na sua igreja, com ela e por meio dela, a obra da nossa redenção. (CIC 1071 – 1075)
Na liturgia realiza-se a mais intima cooperação entre o Espírito Santo e a igreja. O Espírito Santo prepara a igreja para encontrar o seu Senhor; lembra e manifesta Cristo á fé da assembléia; torna presente e atualiza o mistério de Cristo; une a igreja á vida e a missão de Cristo e faz frutificar nela o dom da comunhão. (CIC 1091- 1109, 1112)
Na liturgia age “Cristo todo” (“Christus Totus”) por isso tudo na liturgia é imutável. Na liturgia, especificamente na dos sacramentos, há elementos imutáveis porque são de instituição divina, da qual a igreja é sua fiel guardiã. Há também elementos suscetíveis de mudança, que ela tem o poder e às vezes também o dever de adaptar as culturas dos diversos povos. (CIC 1205- 1206)