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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

CURAR ENFERMOS.....................


É muito bom ver como Deus vai moldando e nutrindo a nossa vida no decorrer dos anos. Sempre de novo, vamos descobrindo que sua despensa é muito farta e nunca iremos “consumir tudo” o que ele reserva para nós. Como bem posso testemunhar, ele nunca se cansa de caminhar conosco nessa vereda do discernimento e da maturidade.

Esta série sobre o chamado dos discípulos vem considerando cada uma das dimensões e significados da vocação cristã. Vimos que Jesus chama os discípulos “para estarem com ele”, num claro convite para o estabelecimento de sólidos laços de relação com o seu Mestre. Ao deter-nos no chamado “para pregar o evangelho”, vimos como a palavra de Deus nos alcança de forma redentora nos becos mais escondidos da vida.

A vocação “para curar enfermos”, para a qual olhamos hoje, não consta no texto de Marcos. Porém foi uma marca inquestionável da vocação dos discípulos, assim como do ministério de Jesus. Em Mateus 10.1ss, Jesus envia os doze discípulos e dá-lhes autoridade “para expulsar espíritos imundos e curar todas as doenças e enfermidades”. Marcos, num texto paralelo (Mc 6.7-12), diz que Jesus, “chamando os Doze para junto de si, enviou-os” (v. 7), e “eles saíram e pregaram ao povo que se arrependesse. Expulsavam muitos demônios e ungiam muitos doentes com óleo, e os curavam” (v. 12-13). Os relatos de Lucas evidenciam uma unidade clara entre o que Jesus manda os discípulos fazerem e o que ele mesmo faz. Depois de passar a noite orando no monte e então escolher os doze discípulos, ele desce do monte para encontrar-se com uma multidão, “que vieram para ouvi-lo e serem curados de suas doenças”. E o texto continua: “Os que eram perturbados por espíritos imundos ficaram curados, e todos procuravam tocar nele, porque dele saía poder que curava todos” (Lc 6.12-19).

Os diferentes momentos em que Jesus enviou os discípulos, ou exerceu o seu próprio ministério, deixam claras as marcas da nossa vocação: “pregar o evangelho, curar os enfermos e expulsar os demônios”. São três dimensões ministeriais -- “salvação, restauração e libertação” -- e nenhuma delas deve ser exercida isoladamente; na verdade, uma caminha para dentro da outra. Juntas, elas se constituem em expressão do reino de Deus a irromper na vida cansada, destroçada e perdida do ser humano.

Curar enfermos... tem certeza?
O meu ancoradouro espiritual foi um movimento muito piedoso e rígido; havia muita coisa que um cristão não fazia e com que não se envolvia. Enfatizava-se a conversão, a comunhão cristã e o crescimento na fé, e o instrumento-chave para que isso acontecesse era a pregação do evangelho e o ensino da Palavra. Quanto aos enfermos, devia-se orar com eles e por eles; mas qualquer ênfase ou “espetáculo público” neste sentido era descartado. Orava-se por cura e esperava-se a resposta, mas isso era feito com gratidão, silêncio e discrição.

Quando fui estudar teologia -- e esta era de caráter liberal --, a coisa ficou difícil e tensa. Mesmo querendo apegar-me aos princípios e fundamentos da minha fé, fui confrontado com uma teologia que queria desconstruir essa fé “pietista e infantil”. Sair por aí dizendo que na caminhada da fé os enfermos são curados era algo incabível no universo desta teologia, pois uma das suas maiores dificuldades era lidar com milagres e qualquer coisa que fugisse a processos de racionalização. Milagre tinha de ser explicado e não experimentado.

Porém o convite-desafio a curar os enfermos continuava lá, assim como Deus continuava lá, insistindo em mostrar-me que esta dimensão da cura era importante para ele, para os enfermos e para mim mesmo. Afinal, há tantos doentes ao nosso redor e tanta enfermidade dentro de nós que é impossível imaginar que Deus não se preocupe com os doentes e suas mazelas.

Revisando minha caminhada, percebo duas vertentes que me levaram a agradecer a Deus por querer curar as pessoas. A primeira é o próprio Deus. Eu continuo a ver nas Escrituras que ele se importa com os doentes, e ele insistia em dizer que eu também deveria me importar. Eu percebia que não poderia abraçar uma das expectativas de Jesus -- pregar o evangelho --, enquanto ignorava a outra -- curar os enfermos. Aliás, fui percebendo mais e mais como um dos mandatos de Jesus se encaixa no outro e como precisamos de todos eles se queremos anunciar e experimentar salvação:

Estar com Jesus
Pregar o evangelho
Curar os enfermos
Expulsar os demônios

A segunda vertente é a enorme quantidade de doenças e pessoas enfermas ao nosso redor, sem ignorar o peso que a enfermidade tem na nossa vida e na vida dos que nos são próximos. Basta ver quanto das nossas conversas giram em torno de doenças, quantos remédios temos em casa, quantas vezes nos automedicamos, quantos pedidos de oração por pessoas doentes na igreja. Somos pessoas doentes vivendo numa sociedade doente -- e Deus se importa com isso! Por isso Jesus diz aos discípulos: “Quando entrarem numa cidade... curem os doentes que ali houver e digam-lhes: O reino de Deus está próximo de vocês” (Lc 10.8-9). Agradeço a Deus por ele tocar os doentes com o seu toque restaurador, e nós sabemos que isto pode tomar muitas direções na vida de muitas pessoas. Porém sempre que ele nos toca o reino de Deus está próximo. Paz e bem

E VOCÊ, O QUANTO AMA O MUNDO ?


“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito...”
João 3.16

Imagino que haja muitas objeções a este raciocínio. A primeira se baseia em 1 João 2.15: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele”. A solução é fácil. Apesar de os dois textos usarem a mesma palavra, “kosmos” (mundo), em João 3.16 ela se refere ao mundo físico ou humano, enquanto em 1 João 2.15 se refere aos valores negativos de um “mundo” pecaminoso. Voltando à pergunta do título, se Deus amou o mundo a ponto de dar seu único Filho, qual é a medida do nosso amor pelo mundo? Surge então a segunda objeção: Será que João não está se referindo ao mundo de pessoas em vez de se referir ao mundo físico?

Ele está falando do mundo de pessoas sim. Aqui, “mundo” claramente se refere aos dois aspectos do mundo criado por Deus: humano e não-humano. Basta ler João 1.9-10. Talvez a conexão entre os dois fique mais clara se considerarmos Romanos 8.18-25, em que a salvação da humanidade e do mundo não-humanos é interligada.

Toda a criação um dia será “salva”, isto é, renovada e recuperada. Porém, de acordo com Romanos 8, esta redenção da criação só acontece depois da salvação dos seguidores de Cristo. E o motivo é que, embora a redenção venha sempre e unicamente de Deus, ele próprio incumbe o seu povo de ser instrumento para anunciar tal redenção. Por isso, o povo de Deus, a igreja, tem um papel importantíssimo na redenção da criação. Certamente, entre outras coisas, isso implica num compromisso ativo que os ecologistas chamam de “conservação”. A palavra preferida das Escrituras parece ser “redenção” ou “renovação”. Basicamente, o que Paulo descreve em Romanos 8 é o que o visionário João fala em Apocalipse quando descreve o novo céu e a nova terra.

Agora talvez já tenha surgido uma terceira objeção à ideia de “amarmos este mundo como Deus amou”.

Afinal, a Bíblia não afirma que este mundo físico, antes do fim dos tempos, se desfará? Então, por que tanto esforço para conservá-lo? Será que a Bíblia ensina que o mundo físico que conhecemos um dia não mais existirá? Vejamos 1 Pedro 3.7 e 12. Ambos os versículos falam da “destruição” por meio do “fogo”, tanto na maioria das nossas traduções quanto no original. Lendo esses versículos isoladamente e fora do seu contexto, só podemos concluir que o mundo físico aguarda, de fato, uma destruição futura total, uma aniquilação e o desaparecimento, assim como o fogo transforma a madeira em cinzas. Porém, o versículo 6 muda esta leitura. Os céus e a terra, isto é, o mundo físico, serão destruídos, consumidos pelo fogo, “da mesma forma” que o mundo físico anteriormente foi destruído pelas águas. Que tipo de “destruição” é essa? Por um lado, tal destruição certamente não é aniquilação, obliteração, e extinção total. Pois, depois do dilúvio, o mundo continuou a existir. Porém, tal destruição não ocorreu sem dor e sem estrago substancial. Portanto, a destruição do dilúvio e do mundo futuro “envolve grande dano, mas não a inexistência”. Outros usos desta linguagem nas escrituras apontam para a ideia de purificação e transformação, um processo doloroso e abrangente (Ml 3.1-4; 1Co 3.12-15).

Isto significa que “novos céus” e “nova terra” não são “outros céus” e “outra terra”, mas céus e terra renovados, da mesma forma que Cristo nos transforma em novos homens e novas mulheres, isto é, não fisicamente em outras pessoas, mas em pessoas renovadas, e assim, em outras pessoas interiormente.

Voltamos à pergunta inicial: Quanto nós amamos este mundo? Quanto amamos a criação de Deus, que ele próprio pretende renovar? Qual é a nossa ação atual de manifestação deste amor?